Folha de Maputo
2013-03-19

Irão os Estados Unidos começar a exportar gás natural?

A produção de gás natural nos Estados Unidos tem vindo a aumentar de uma forma galopante-equilibrada desde 2005. Em 2012, os Estados Unidos produziram mais de 30 por cento do que em 2005. Este aumento sucessivo da produção de gás tem feito aumentar a confidência dos produtores domésticos de gás fazendo com que eles comecem a pressionar o Departamento de Energia com o objectivo de se por termo a proibição sobre a exportação do gás. O crescimento na produção é devida a produção das formações argilosas devido aos avanços tecnológicos da indústria.

A abundância de gás natural nos Estados Unidos, onde se praticam os preços mais baixos do globo, começa a ser tida com uma oportunidade de negócio para exportação. A acontecer, os exportadores mundiais de gás natural terão pela frente um competidor agressivo capaz de colocar no mercado gás a 30-40% dos preços praticados na Europa e, a menos de 25% dos preços praticados na Ásia. A entrada dos Estados Unidos no mercado do gás internacional poderá tornar não competitivos e como tal não comercializáveis muitos dos projectos de gás natural (LNG) neste momento em vias de desenvolvimento em África e na Austrália.

Os Estados Unidos continuam a importar gás natural do Canada. Entretanto, em finais de 2012 o país importou pouco mais de 10% do consumo total de gás natural, significando isso, uma quebra de cerca de 30% em relação aos anos anteriores. Mesmo assim sendo, a bonança do gás das argilas não significará necessariamente a independência energética que a administração americana pretende alcançar.

Neste momento, o preço de gás natural nos Estados Unidos ronda os U$D 3,10 por MCF (mil pés cúbicos). Os Europeus, pagam cerca de U$D 12,00 enquanto que os Asiáticos pagam U$D 17,00. É um caso clássico de produtores em busca de melhores mercados para o escoamento dos seus produtos. Será que estamos a beira de um excedente indesejável? Assim o entendem os produtores e industriais químicos americanos e canadianos.

É nesta perspectiva que passamos a analisar as duas posições extremas que se verificam neste momento nos EUA:

i) Os produtores de gás natural acreditam que eles deveriam ter acesso ao mercado internacional e querem deste modo acabar com as restrições de exportações de gás natural impostas pelo governo americano. Se os Estados Unidos produz gás natural em quantidade suficiente para o consumo interno ou não, não é significativo e relevante no ambiente de negócios americano onde a procura de maiores lucros é primordial e como tal um direito de qualquer cidadão ou entidade fiscal.

ii) Por outro lado, os grandes consumidores industriais de gás acreditam que havendo mais gás disponível, manter-se-ão os preços de energia e a matéria-prima para a indústria química mais baixos para os grandes complexos industriais do pais. Esse factor dará á indústria química americana uma vantagem sobre os concorrentes no exterior uma vez que o preço dos seus produtos será mais baixo. A produção de derivados do gás é muito mais cara no mundo inteiro do que nos Estados Unidos. A subida de um dólar do preço do gás, significa automaticamente a perca de um bilhão de dólares para a Monsanto, um dos maiores utilizadores de gás do mundo. Assim sendo, os benefícios económicos provenientes do gás barato terão (estão tendo) um impacto muito pesado no mundo fabril e no tecido social americano. Isso poderá mesmo traduzir-se em menos desemprego e benefícios indirectos na ampla rede da economia americana. Preços baixos de gás natural beneficiam praticamente todos os negócios a ele associados. Beneficiará finalmente a quem paga a factura do gás natural. Preços mais altos de gás natural, como consequência da exportação, só beneficiarão os negócios dos produtores de gás natural. A escolha do DOE, até ao presente, tem sido fácil e a favor dos consumidores. Esperemos que se mantenha para que os projectos em África possam passar a realidade.

O impacto que o gás dos Estados Unidos pode causar sobre os produtores internacionais é de tal maneira tão grande que os fornecedores da Europa e da Ásia ver-se-ão forçados a renegociar os contractos a médio (e quiçá longo) prazo já existentes. A acontecer isso, todos os contractos viventes, bem como os contratos assinados desde 2005 para além dos que estão planificados para entrar em produção até 2025 poderão ser prejudicados ou até mesmo suspensos devido a falta de competitividade.

Esta situação não é de maneira nenhuma favorável a produção de gás em Moçambique. São as regras do mercado, onde a procura deverá equilibrar a oferta. Se de repente a oferta de gás se tornar maior do que a procura, o preço cairá a níveis insuportáveis para os produtores. A partir da linha crítica no cálculo do preço do produto final, onde o custo de produção é igual ou maior que o preço do mercado de vendas, o nascimento da indústria de LNG em Moçambique poderá ser abortada à partida. Ou, na melhor das hipóteses, ver um atraso de dez a vinte anos para o seu arranque inicial. Digamos, 2030? Resta-nos a esperança de um aumento de consumo razoável.

Entretanto, as reservas nacionais continuam a definir-se com mais precisão. A ENI acaba de anunciar a descoberta de mais um campo de gás. Será esta a oportunidade de começar a pensar na industrialização massiva para o consumo do gás em território nacional?
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